Antonio Teixeira Diniz - Barão do Campo Místico
Figura
histórica, das mais importantes da região, o Barão do Campo Místico gerou
lendas, mitos e muitos benefícios para a cidade.
Construiu
o primeiro hotel da localidade, situado na atual praça Pedro Sanches, criou o
primeiro clube, para ocupação do tempo ocioso dos turistas e uma linha de
troles, que fazia o transporte das pessoas desde a estação ferroviária das
Caldas, atual Aguaí, até Poços.
O Barão
foi figura controversa em vida e depois de morto. Homem de honra e grandes
gestos, não gostava de expor sua vida. Considerava que as pessoas valem pelo
que fazem e não pelo que o dinheiro pode fazer por elas. Desprendido dos bens
materiais, era amigo e inimigo fiel. A família, representava tudo para ele.
Vivendo em uma época que os novos casamentos se combinavam já no funeral de um
dos cônjuges, só casou uma vez, ficando viúvo por 52 anos.
Herdou
avultadas fortunas por parte de mãe e pai e soube aumentá-las e transformá-las
em amparo de sua família. Chegou a ser proprietário das terras que
abrangiam a atual serra de Poços de
Caldas e continuavam pela serra da Fumaça, sempre na margem esquerda do rio
Lambary. Foi dono das fazendas do Jaguari, Ventania, atual Irarema e Alina,
além de muitos imóveis na cidade e de outros bens em Caldas. O casarão que foi
demolido para construir a Caixa Econômica Federal naquela cidade era a sua
residência.
Mas quem
era esse homem, que no início do século XX, conseguiu sentar no banco dos réus,
o filho de um dos coronéis mais importantes do Sul de Minas?
Em uma
fazenda situada entre Campo Místico e Ouro Fino, propriedade de Antônio Joaquim
Teixeira, nasceu em 1836 um menino a que foi dado o nome de Antônio. Sua mãe,
Luiza Maria do Nascimento, dava à luz ao quarto filho, dos nove que manteve até
sua morte em 1856 : Emigdio, Cyriara, Emília (Amélia), Antônio, José Cândido, Maria, José Bonifácio,
Francisca e Liberato.
O pai de
Antônio, Antônio Joaquim Teixeira, viúvo, casou outra vez, com Júlia Maria do
Rosário, tendo mais quatro filhos: Laurinda, Ireno, Eduardo e Inocêncio.
Faleceu em 1882 com 82 anos de idade.
O avô
paterno de Antônio, Antônio Teixeira, e sua avó, Francisca Maria de Jesus, os
dois naturais de Ouro Fino, já habitavam a região quando chegaram os místicos
vindos do Rio de Janeiro. Segundo a tradição, estes teriam alcançado a região
por volta de 1840, e a família de Antônio aparece em registros anteriores a
1800. Inclusive, em 1840, ano da chegada dos místicos, Antônio Teixeira e sua
esposa já haviam falecido.
A mãe de
Antônio, Luiza Maria do Nascimento, era de uma família distinta de Caldas, seu
avô tinha formado a fazenda dos Bugres, e fundado a cidade.
Antônio
cresceu e estudou em Caldas, tendo vivido sempre em ambiente de privilégio na
companhia dos filhos mais importantes da terra.
Enamorado
de uma senhora viúva, Ana Bárbara de Carvalho, também de Caldas, casou-se com
ela na Matriz de Ouro Fino, em 9/1/1859.
Sua
esposa tinha tido dois filhos do primeiro casamento. Um teria morrido na
infância, depois da morte do pai e o outro viria a ser criado por Antônio.
Quando se casou, seu enteado ainda não tinha um ano de idade.
Deste
casamento que durou 16 anos, Antônio e Ana Bárbara tiveram um filho, nascido em
1866, a quem deram o nome de Jonas. Este filho, com este nome, só volta a ser
mencionado no inventário de sua mãe, quando tinha 9 anos de idade. Em 1900,
quando da venda da fazenda que hoje leva o nome de Alina para João Teixeira
Diniz, Antônio declara no contrato só ter um filho legítimo, João e não Jonas,
nascido também no ano de 1866.
Viúvo aos
31 anos, Antônio não voltaria a se casar. Herdeiro de avultada fortuna, aplica
seu capital em negócios bem sucedidos, nunca recusando auxilio à sua família,
nem a seus amigos.
No
inventário de sua prima Ludovina Teixeira, em 1882, proprietária de imenso
latifúndio em Jaguarí, Antônio apresenta documentos provando que os herdeiros
teriam-lhe vendido todos os direitos sucessórios, passando essas terras a serem
de sua propriedade.
Em 1900,
quando vem a falecer seu irmão caçula, Inocêncio, deixando apenas dívidas,
Antônio assume e honra todos os compromissos do irmão.
Amigo de
infância do Coronel Agostinho Junqueira, quando é formada a localidade de
Poços, em terras da família Junqueira, Antônio vem para o local e investe em
vários negócios, como se pode ler no livro do Dr. Mário Mourão, "Poços de
Caldas, Síntese Histórico Social".
Ainda em
Caldas, lhe é atribuída a patente de Coronel e quando da visita do Imperador à
Poços de Caldas, em 1886, D.Pedro II concede-lhe o título de Barão do Campo
Místico, assinado em 1889.
Durante
vários anos auxilia o Coronel Agostinho Junqueira na evolução de Poços, mas
devido a arbitrariedades provocadas por políticos próximos ao Coronel, acaba
por passar para a oposição à política Junqueira, sem nunca ter ingressado nas
fileiras de Faria Lobato ou David Ottoni, opositores tradicionais.
Os
problemas do Barão começam por volta de 1904, quando suas fazendas de café
entram em decadência econômica e agravam-se por volta de 1908 quando sua saúde
começa a enfraquecer e seu estado mental a ser perturbado por doença grave.
De 1908 a
1912 perde todas as suas propriedades urbanas, que chegaram a totalizar 16
prédios na cidade, e aos poucos vai vendendo suas fazendas na região.
Capitalista, acaba por esquecer quem lhe devia, falecendo em Poços de Caldas em
26/12/1918, depois do suicídio de seu, reconhecido, único filho, João Teixeira
Diniz, ocorrido em 12/4/1917, que tinha deixado 9 filhos órfãos, já que sua
esposa, Alina Barros, falecera em 1914.
Seus netos,
Honorina, Jonas, João, Antônio, Anézia, Reinaldo, Ary e Margarida, ficaram em
pobreza absoluta. O pai, João Teixeira Diniz, morreu endividado sem deixar nada
para os filhos e Antônio, já não tinha condições de os socorrer, encontrando-se
em estado de inconsciência mental.
Diz a
tradição que o Barão morreu louco e pobre, tocando buzina pelos montes da
cidade. Mas os fatos que o precederam demonstram que a tradição popular estava
errada.
Voltando
ao ano de 1881, em 5 de outubro é batizado em Caldas um menino de nome
Cícero, filho de pai incógnito e de Pureza Augusta Carmela, também Pureza
Meireles. Este menino, diz a tradição, seria filho de Antônio, embora nunca
tenha sido reconhecido oficialmente. Inclusive, não foi encontrada nenhuma
referência oficial do Barão a ele, nem como filho nem como cidadão. Diz ainda a
tradição que Cícero, teria ido para São Paulo por não concordar com a forma de
viver de seu pai, recusando qualquer ajuda paterna. Em São Paulo fez fortuna,
sozinho, tentando esquecer de quem era filho.
Novamente
a tradição popular estava errada.
Em 26 de novembro de 1917, 13 meses antes do
Barão falecer e 7 meses depois do falecimento de João Teixeira Diniz, Cícero
Meireles vem aà Poços de Caldas e faz com que o Barão - em estado de decrepitude e inconsciência -
assine uma escritura de perfilhação.
A partir
daí Cícero Meireles passa a usar o nome de Cícero Meireles Teixeira Diniz.
O que
levaria Cícero Meireles a esperar a morte do “ irmão“, ocorrida poucos meses
antes e o estado de inconsciência de seu pai para reclamar os direitos de
filho? --- Seu pai estava falido ! Seus sobrinhos viviam na miséria !
Os fatos
que ocorrem depois da morte do Barão são ainda mais estranhos, embora
esclarecedores.
O Barão
morreu em 26/12/1918, não deixando testamento nem bens a inventariar.
Em 16 de
setembro de 1919, Cícero Meireles Teixeira Diniz apresenta-se no escritório do
escrivão interino, José Bretas de
Oliveira, em Poços de Caldas, declarando a morte do Barão, e dizendo-se seu
único herdeiro e requer a sua nomeação como inventariante dos bens de seu pai.
Nomeado
oficialmente, presta juramento e declara que seu pai deixara um imóvel na Rua
São Paulo no valor de 3.000$000 (Três contos de réis) e mais 4.000$000 ( Quatro
contos de réis ) que havia recebido de Francisco Pereira Guimarães, referentes
a uma dívida para com o Barão.
Foram
nomeados avalistas dos bens os senhores Francisco Machado Falleiros e
Constancio Vivas, que atestaram sua veracidade.
Declarado
único herdeiro, Cícero Meireles Teixeira Diniz pagou as custas e os direitos de
transmissão referentes, sobre 6.850$000
, valor dos bens do Barão, depois de descontados os encargos.
O
processo foi encerrado em 15 de Junho de 1920.
Todo este
procedimento seria normal em uma família normal. Faleceu o pai e o filho vem a
público apresentar os bens de que é herdeiro. Só que neste caso especial,
alguns fatos devem ser considerados :
1) Cícero
Meireles nunca fez questão de usar o nome da família do pai;
2) Nunca
se interessou pelos bens do pai, nem em vir a ser auxiliado por ele;
3) Deixou
João Teixeira Diniz falecer para vir à Poços reclamar, junto do pai, o
perfilhamento;
4)
Apresenta-se junto do tribunal como filho único do Barão, sabendo que todas as
pessoas tinham conhecimento da existência dos filhos de João Teixeira Diniz,
herdeiros, por direito, do Barão;
5) Dá
como bens a inventariar uma casa que tinha sido vendida pelo Barão, anos antes
de sua morte, pagando direitos e custas sobre bens que não herdou.
Naturalmente
que, sendo conhecida a inteligência de Cícero Meireles, alguma coisa havia por
detrás de todas estas atitudes incoerentes.
E não
decorreu muito tempo para se esclarecer esta reviravolta no comportamento do
filho que sempre renegou o pai e tudo o que lhe dizia respeito.
(Continua)
(Continua)
