domingo, 10 de março de 2013

O Barão injustiçado



Antonio Teixeira Diniz - Barão do Campo Místico

Figura histórica, das mais importantes da região, o Barão do Campo Místico gerou lendas, mitos e muitos benefícios para a cidade.
Construiu o primeiro hotel da localidade, situado na atual praça Pedro Sanches, criou o primeiro clube, para ocupação do tempo ocioso dos turistas e uma linha de troles, que fazia o transporte das pessoas desde a estação ferroviária das Caldas, atual Aguaí, até Poços.
O Barão foi figura controversa em vida e depois de morto. Homem de honra e grandes gestos, não gostava de expor sua vida. Considerava que as pessoas valem pelo que fazem e não pelo que o dinheiro pode fazer por elas. Desprendido dos bens materiais, era amigo e inimigo fiel. A família, representava tudo para ele. Vivendo em uma época que os novos casamentos se combinavam já no funeral de um dos cônjuges, só casou uma vez, ficando viúvo por 52 anos.
Herdou avultadas fortunas por parte de mãe e pai e soube aumentá-las e transformá-las em amparo de sua família. Chegou a ser proprietário das terras que abrangiam  a atual serra de Poços de Caldas e continuavam pela serra da Fumaça, sempre na margem esquerda do rio Lambary. Foi dono das fazendas do Jaguari, Ventania, atual Irarema e Alina, além de muitos imóveis na cidade e de outros bens em Caldas. O casarão que foi demolido para construir a Caixa Econômica Federal naquela cidade era a sua residência.

Mas quem era esse homem, que no início do século XX, conseguiu sentar no banco dos réus, o filho de um dos coronéis mais importantes do Sul de Minas?

Em uma fazenda situada entre Campo Místico e Ouro Fino, propriedade de Antônio Joaquim Teixeira, nasceu em 1836 um menino a que foi dado o nome de Antônio. Sua mãe, Luiza Maria do Nascimento, dava à luz ao quarto filho, dos nove que manteve até sua morte em 1856 : Emigdio, Cyriara, Emília (Amélia), Antônio,  José Cândido, Maria, José Bonifácio, Francisca e Liberato.
O pai de Antônio, Antônio Joaquim Teixeira, viúvo, casou outra vez, com Júlia Maria do Rosário, tendo mais quatro filhos: Laurinda, Ireno, Eduardo e Inocêncio. Faleceu em 1882 com 82 anos de idade.
O avô paterno de Antônio, Antônio Teixeira, e sua avó, Francisca Maria de Jesus, os dois naturais de Ouro Fino, já habitavam a região quando chegaram os místicos vindos do Rio de Janeiro. Segundo a tradição, estes teriam alcançado a região por volta de 1840, e a família de Antônio aparece em registros anteriores a 1800. Inclusive, em 1840, ano da chegada dos místicos, Antônio Teixeira e sua esposa já haviam falecido.
A mãe de Antônio, Luiza Maria do Nascimento, era de uma família distinta de Caldas, seu avô tinha formado a fazenda dos Bugres, e fundado a cidade.
Antônio cresceu e estudou em Caldas, tendo vivido sempre em ambiente de privilégio na companhia dos filhos mais importantes da terra.
Enamorado de uma senhora viúva, Ana Bárbara de Carvalho, também de Caldas, casou-se com ela na Matriz de Ouro Fino, em 9/1/1859.
Sua esposa tinha tido dois filhos do primeiro casamento. Um teria morrido na infância, depois da morte do pai e o outro viria a ser criado por Antônio. Quando se casou, seu enteado ainda não tinha um ano de idade.
Deste casamento que durou 16 anos, Antônio e Ana Bárbara tiveram um filho, nascido em 1866, a quem deram o nome de Jonas. Este filho, com este nome, só volta a ser mencionado no inventário de sua mãe, quando tinha 9 anos de idade. Em 1900, quando da venda da fazenda que hoje leva o nome de Alina para João Teixeira Diniz, Antônio declara no contrato só ter um filho legítimo, João e não Jonas, nascido também no ano de 1866.
Viúvo aos 31 anos, Antônio não voltaria a se casar. Herdeiro de avultada fortuna, aplica seu capital em negócios bem sucedidos, nunca recusando auxilio à sua família, nem a seus amigos.
No inventário de sua prima Ludovina Teixeira, em 1882, proprietária de imenso latifúndio em Jaguarí, Antônio apresenta documentos provando que os herdeiros teriam-lhe vendido todos os direitos sucessórios, passando essas terras a serem de sua propriedade.
Em 1900, quando vem a falecer seu irmão caçula, Inocêncio, deixando apenas dívidas, Antônio assume e honra todos os compromissos do irmão.
Amigo de infância do Coronel Agostinho Junqueira, quando é formada a localidade de Poços, em terras da família Junqueira, Antônio vem para o local e investe em vários negócios, como se pode ler no livro do Dr. Mário Mourão, "Poços de Caldas, Síntese Histórico Social".
Ainda em Caldas, lhe é atribuída a patente de Coronel e quando da visita do Imperador à Poços de Caldas, em 1886, D.Pedro II concede-lhe o título de Barão do Campo Místico, assinado em 1889.
Durante vários anos auxilia o Coronel Agostinho Junqueira na evolução de Poços, mas devido a arbitrariedades provocadas por políticos próximos ao Coronel, acaba por passar para a oposição à política Junqueira, sem nunca ter ingressado nas fileiras de Faria Lobato ou David Ottoni, opositores tradicionais.
Os problemas do Barão começam por volta de 1904, quando suas fazendas de café entram em decadência econômica e agravam-se por volta de 1908 quando sua saúde começa a enfraquecer e seu estado mental a ser perturbado por doença grave.
De 1908 a 1912 perde todas as suas propriedades urbanas, que chegaram a totalizar 16 prédios na cidade, e aos poucos vai vendendo suas fazendas na região. Capitalista, acaba por esquecer quem lhe devia, falecendo em Poços de Caldas em 26/12/1918, depois do suicídio de seu, reconhecido, único filho, João Teixeira Diniz, ocorrido em 12/4/1917, que tinha deixado 9 filhos órfãos, já que sua esposa, Alina Barros, falecera em 1914.
Seus netos, Honorina, Jonas, João, Antônio, Anézia, Reinaldo, Ary e Margarida, ficaram em pobreza absoluta. O pai, João Teixeira Diniz, morreu endividado sem deixar nada para os filhos e Antônio, já não tinha condições de os socorrer, encontrando-se em estado de inconsciência mental.
Diz a tradição que o Barão morreu louco e pobre, tocando buzina pelos montes da cidade. Mas os fatos que o precederam demonstram que a tradição popular estava errada.

Voltando ao ano de  1881,  em 5 de outubro  é batizado em Caldas um menino de nome Cícero, filho de pai incógnito e de Pureza Augusta Carmela, também Pureza Meireles. Este menino, diz a tradição, seria filho de Antônio, embora nunca tenha sido reconhecido oficialmente. Inclusive, não foi encontrada nenhuma referência oficial do Barão a ele, nem como filho nem como cidadão. Diz ainda a tradição que Cícero, teria ido para São Paulo por não concordar com a forma de viver de seu pai, recusando qualquer ajuda paterna. Em São Paulo fez fortuna, sozinho, tentando esquecer de quem era filho.
Novamente a tradição popular estava errada.
Em  26 de novembro de 1917, 13 meses antes do Barão falecer e 7 meses depois do falecimento de João Teixeira Diniz, Cícero Meireles vem aà Poços de Caldas e faz com que o Barão -  em estado de decrepitude e inconsciência - assine uma escritura de perfilhação.
A partir daí Cícero Meireles passa a usar o nome de Cícero Meireles Teixeira Diniz.
O que levaria Cícero Meireles a esperar a morte do “ irmão“, ocorrida poucos meses antes e o estado de inconsciência de seu pai para reclamar os direitos de filho? --- Seu pai estava falido ! Seus sobrinhos viviam na miséria !
Os fatos que ocorrem depois da morte do Barão são ainda mais estranhos, embora esclarecedores.
O Barão morreu em 26/12/1918, não deixando testamento nem bens a inventariar.
Em 16 de setembro de 1919, Cícero Meireles Teixeira Diniz apresenta-se no escritório do escrivão  interino, José Bretas de Oliveira, em Poços de Caldas, declarando a morte do Barão, e dizendo-se seu único herdeiro e requer a sua nomeação como inventariante dos bens de seu pai.
Nomeado oficialmente, presta juramento e declara que seu pai deixara um imóvel na Rua São Paulo no valor de 3.000$000 (Três contos de réis) e mais 4.000$000 ( Quatro contos de réis ) que havia recebido de Francisco Pereira Guimarães, referentes a uma dívida para com o Barão.
Foram nomeados avalistas dos bens os senhores Francisco Machado Falleiros e Constancio Vivas, que atestaram sua veracidade.
Declarado único herdeiro, Cícero Meireles Teixeira Diniz pagou as custas e os direitos de transmissão referentes, sobre  6.850$000 , valor dos bens do Barão, depois de descontados os encargos.
O processo foi encerrado em 15 de Junho de 1920.
Todo este procedimento seria normal em uma família normal. Faleceu o pai e o filho vem a público apresentar os bens de que é herdeiro. Só que neste caso especial, alguns fatos devem ser considerados :
1) Cícero Meireles nunca fez questão de usar o nome da família do pai;
2) Nunca se interessou pelos bens do pai, nem em vir a ser auxiliado por ele;
3) Deixou João Teixeira Diniz falecer para vir à Poços reclamar, junto do pai, o perfilhamento;
4) Apresenta-se junto do tribunal como filho único do Barão, sabendo que todas as pessoas tinham conhecimento da existência dos filhos de João Teixeira Diniz, herdeiros, por direito, do Barão;
5) Dá como bens a inventariar uma casa que tinha sido vendida pelo Barão, anos antes de sua morte, pagando direitos e custas sobre bens que não herdou.

Naturalmente que, sendo conhecida a inteligência de Cícero Meireles, alguma coisa havia por detrás de todas estas atitudes incoerentes.

E não decorreu muito tempo para se esclarecer esta reviravolta no comportamento do filho que sempre renegou o pai e tudo o que lhe dizia respeito.

(Continua)