sexta-feira, 5 de abril de 2013

Origens de Poços de Caldas - Os Junqueira


Para se entender a origem do domínio político da região onde está situado o território do atual município de Poços de Caldas, torna-se necessário conhecer as bases do seu povoamento.

Assim, em forma de introdução, vamos analisar como pôde uma família controlar durante mais de dois séculos os destinos destas terras, de seus habitantes e de uma forma geral, de sua ideologia política.

Tudo remonta ao século XVIII, quando um português, da região de Lisboa, vem para o Brasil e se instala em Minas Gerais.
Chamava-se Bernardo da Cunha Cobra. Batizado na igreja matriz de Santiago de Almada a 19 de julho de 1705.
Veio para o Brasil por volta de 1725, residindo em Mariana, Baependi e Campanha.
Casou com Ana Isabel de Gouvêa, filha do Sargento-Mor Manuel Nunes de Gouvêa, português natural de São Julião, do Patriarcado de Lisboa.
Seu sogro, cristão-novo, tomou o nome de Gouvêa, e veio para o Brasil, fazendo história no Sul de Minas, longe da Inquisição e de todas as tormentas que os judeus viviam nos grandes centros urbanos.
Tiveram vários filhos, entre eles:

1. Jerônima Maria de Jesus, Baependi, 1736 que casou com Henrique Costa, português, também de Almada, que são apontados como uns dos fundadores de Campanha.
Seu filho,

1.1. Joaquim Bernardes Costa, nascido em Campanha, casa com Ana Cândida Junqueira, filha de João Francisco, o da Junqueira, iniciador desta família no Brasil, e de Helena Maria do Espírito Santo, filha da Ilhoa Maria Teresa de Jesus, e do Português Inácio Franco, iniciadores da família Franco.

Esta Maria Teresa de Jesus casou em segundas núpcias com Bento Rabelo de Carvalho, pais, entre outros, de Antonio Rabelo de Carvalho, que formou fazenda em Poços de Caldas, sendo um dos povoadores da nossa região.

Antonio Rabelo de Carvalho casou com Mariana Antonia de Jesus, filha do Tenente João Garcia Duarte, que viria a ficar viúva e a casar, em segundas núpcias, com Manoel Rodrigues da Costa, outro Sesmeiro das terras de Poços de Caldas.

1.1.1. Joaquim Bernardes da Costa Junqueira, que veio a se tornar o Sesmeiro da maior área do território de Poços de Caldas, casou três vezes, sendo a última com Luisa Ferreira Bretas, filha de Agostinho Ferreira Bretas, que chegou a ser presidente de Minas Gerais, e um dos políticos mais importantes da cidade de Caldas.

Joaquim Bernardes da Costa Junqueira, era irmão do Padre Francisco Junqueira, que requereu sesmaria em Poços de Caldas, sendo-lhe atribuída uma área de três léguas em quadra. Esta extensão de terreno foi dividida pelo padre, tendo, uma parte, onde foi formada a fazenda dos Moinhos, sido doada a Maria Antonia da Paixão, com quem o padre Junqueira teve cinco filhos.
Uma das filhas deste casal, Antonia Francisca Junqueira, casou com Thomaz José de Andrade, que era proprietário de uma grande fazenda em Poços de Caldas.

Resumindo:
A partir dos anos 20 do século XIX, já estão instalados na região, as famílias que irão ser o centro do povoamento do atual município de Poços de Caldas.
Tomando como referência a fazenda dos Moinhos, propriedades de Antonia Maria da Paixão vejam as suas confrontações:

--- ao Norte com Joaquim Bernardes da Costa Junqueira;

--- a Leste com Manoel Rodrigues da Costa, que casou com uma filha de Thomaz José de Andrade e de Antonia Francisca Junqueira, filha de dona Antonia Maria da Paixão;

--- a Sul Andradas, Caracol na época;

--- a Oeste o alferes Thomaz José de Andrade, Antonio Rabelo de Carvalho, casado com Ana Junqueira e as terras do padre Junqueira que ficavam no Monte Alegre depois do Chapadão.

Ou seja, todas as terras do município estavam nas mãos dos Junqueira ou de seus parentes formando uma oligarquia poderosa que não deixava qualquer espaço para gente de fora.

Os seus aliados tradicionais eram a família Oliveira, de São João da Boa Vista, cujo iniciador da família foi casado com uma das filhas do padre Junqueira e de Maria Antonia da Paixão.

Em Caldas, o Manoel Inácio Franco dominou o inicio do povoamento, sendo este, irmão da mulher de João Francisco Junqueira e por parte de mãe irmão de Antonio Rabelo de Carvalho.

Para fechar o circulo, outro filho do português Bernardo da Cunha Cobra deu origem à família Cobra da região de Caldas família política das mais importantes do Sul de Minas.

2. Inácio Manoel Cobra c.c. Escolástica Barbosa de Alvarenga
2.1. Inácio João Cobra c.c. Bernarda Guilhermina de Barros
2.1.1. José Inácio de Barros Cobra, 1820 c.c. Emiliana Adélia Meyer
2.1.1.1. Dr. José Inácio de Barros Cobra Junior c.c. Agostinha Ferreira Bretas, em 10 de fevereiro de 1866, sendo ela filha do médico e político Agostinho Ferreira Bretas que, na qualidade de Vice Presidente em exercício, ocupou a Presidência da Província de Minas Gerais entre 26 de maio e 23 de outubro de 1870.
2.1.2. Maximiano Augusto, 1837 c.c. Rosaura Gabriel Afonso
2.1.2.1. José Afonso de Barros Cobra c.c. Maria Auta Junqueira
2.1.2.2. Paulino Afonso de Barros Cobra c.c. Luiza Junqueira

Esta hegemonia política da família Junqueira só viria a ser abalada, no final do século XIX, quando foi proclamada a República.
Nessa altura, republicanos famosos vieram para a cidade e assumiram cargos políticos importantes.
Os que mais se destacaram na oposição aos Junqueira foram os médicos Faria Lobato e David Ottoni.
Outro fator predominante nesta nova era, foi a chegada dos italianos, que trouxeram novas ideias, e formas de associação desconhecidas na povoação.
O surgimento da Maçonaria em Poços de Caldas, 1895, vem conglomerar outra força corporativa, á já criada pelos italianos.
E desta forma, a partir de 1890 começam a ser criadas condições para as grandes lutas políticas que se irão travar por mais de 20 anos.
Em 1902, a oposição, pela primeira vez ganha as eleições em Poços de Caldas, sendo eleito o Dr. Faria Lobato, Agente Executivo do Município.
Mas tudo foi temporário e, novamente os casamentos entre as famílias opositoras um filho dos Lobato casa com uma Junqueira retornam à cidade a oligarquia política, que só virá a ser colocado em causa de uma forma radical já no século XXI, ao ser eleito um prefeito de oratória oposicionista, Paulo Tadeu d Arcádia, embora casado com uma mulher da família Franco aquela que originou os Junqueira...


domingo, 10 de março de 2013

O Barão injustiçado



Antonio Teixeira Diniz - Barão do Campo Místico

Figura histórica, das mais importantes da região, o Barão do Campo Místico gerou lendas, mitos e muitos benefícios para a cidade.
Construiu o primeiro hotel da localidade, situado na atual praça Pedro Sanches, criou o primeiro clube, para ocupação do tempo ocioso dos turistas e uma linha de troles, que fazia o transporte das pessoas desde a estação ferroviária das Caldas, atual Aguaí, até Poços.
O Barão foi figura controversa em vida e depois de morto. Homem de honra e grandes gestos, não gostava de expor sua vida. Considerava que as pessoas valem pelo que fazem e não pelo que o dinheiro pode fazer por elas. Desprendido dos bens materiais, era amigo e inimigo fiel. A família, representava tudo para ele. Vivendo em uma época que os novos casamentos se combinavam já no funeral de um dos cônjuges, só casou uma vez, ficando viúvo por 52 anos.
Herdou avultadas fortunas por parte de mãe e pai e soube aumentá-las e transformá-las em amparo de sua família. Chegou a ser proprietário das terras que abrangiam  a atual serra de Poços de Caldas e continuavam pela serra da Fumaça, sempre na margem esquerda do rio Lambary. Foi dono das fazendas do Jaguari, Ventania, atual Irarema e Alina, além de muitos imóveis na cidade e de outros bens em Caldas. O casarão que foi demolido para construir a Caixa Econômica Federal naquela cidade era a sua residência.

Mas quem era esse homem, que no início do século XX, conseguiu sentar no banco dos réus, o filho de um dos coronéis mais importantes do Sul de Minas?

Em uma fazenda situada entre Campo Místico e Ouro Fino, propriedade de Antônio Joaquim Teixeira, nasceu em 1836 um menino a que foi dado o nome de Antônio. Sua mãe, Luiza Maria do Nascimento, dava à luz ao quarto filho, dos nove que manteve até sua morte em 1856 : Emigdio, Cyriara, Emília (Amélia), Antônio,  José Cândido, Maria, José Bonifácio, Francisca e Liberato.
O pai de Antônio, Antônio Joaquim Teixeira, viúvo, casou outra vez, com Júlia Maria do Rosário, tendo mais quatro filhos: Laurinda, Ireno, Eduardo e Inocêncio. Faleceu em 1882 com 82 anos de idade.
O avô paterno de Antônio, Antônio Teixeira, e sua avó, Francisca Maria de Jesus, os dois naturais de Ouro Fino, já habitavam a região quando chegaram os místicos vindos do Rio de Janeiro. Segundo a tradição, estes teriam alcançado a região por volta de 1840, e a família de Antônio aparece em registros anteriores a 1800. Inclusive, em 1840, ano da chegada dos místicos, Antônio Teixeira e sua esposa já haviam falecido.
A mãe de Antônio, Luiza Maria do Nascimento, era de uma família distinta de Caldas, seu avô tinha formado a fazenda dos Bugres, e fundado a cidade.
Antônio cresceu e estudou em Caldas, tendo vivido sempre em ambiente de privilégio na companhia dos filhos mais importantes da terra.
Enamorado de uma senhora viúva, Ana Bárbara de Carvalho, também de Caldas, casou-se com ela na Matriz de Ouro Fino, em 9/1/1859.
Sua esposa tinha tido dois filhos do primeiro casamento. Um teria morrido na infância, depois da morte do pai e o outro viria a ser criado por Antônio. Quando se casou, seu enteado ainda não tinha um ano de idade.
Deste casamento que durou 16 anos, Antônio e Ana Bárbara tiveram um filho, nascido em 1866, a quem deram o nome de Jonas. Este filho, com este nome, só volta a ser mencionado no inventário de sua mãe, quando tinha 9 anos de idade. Em 1900, quando da venda da fazenda que hoje leva o nome de Alina para João Teixeira Diniz, Antônio declara no contrato só ter um filho legítimo, João e não Jonas, nascido também no ano de 1866.
Viúvo aos 31 anos, Antônio não voltaria a se casar. Herdeiro de avultada fortuna, aplica seu capital em negócios bem sucedidos, nunca recusando auxilio à sua família, nem a seus amigos.
No inventário de sua prima Ludovina Teixeira, em 1882, proprietária de imenso latifúndio em Jaguarí, Antônio apresenta documentos provando que os herdeiros teriam-lhe vendido todos os direitos sucessórios, passando essas terras a serem de sua propriedade.
Em 1900, quando vem a falecer seu irmão caçula, Inocêncio, deixando apenas dívidas, Antônio assume e honra todos os compromissos do irmão.
Amigo de infância do Coronel Agostinho Junqueira, quando é formada a localidade de Poços, em terras da família Junqueira, Antônio vem para o local e investe em vários negócios, como se pode ler no livro do Dr. Mário Mourão, "Poços de Caldas, Síntese Histórico Social".
Ainda em Caldas, lhe é atribuída a patente de Coronel e quando da visita do Imperador à Poços de Caldas, em 1886, D.Pedro II concede-lhe o título de Barão do Campo Místico, assinado em 1889.
Durante vários anos auxilia o Coronel Agostinho Junqueira na evolução de Poços, mas devido a arbitrariedades provocadas por políticos próximos ao Coronel, acaba por passar para a oposição à política Junqueira, sem nunca ter ingressado nas fileiras de Faria Lobato ou David Ottoni, opositores tradicionais.
Os problemas do Barão começam por volta de 1904, quando suas fazendas de café entram em decadência econômica e agravam-se por volta de 1908 quando sua saúde começa a enfraquecer e seu estado mental a ser perturbado por doença grave.
De 1908 a 1912 perde todas as suas propriedades urbanas, que chegaram a totalizar 16 prédios na cidade, e aos poucos vai vendendo suas fazendas na região. Capitalista, acaba por esquecer quem lhe devia, falecendo em Poços de Caldas em 26/12/1918, depois do suicídio de seu, reconhecido, único filho, João Teixeira Diniz, ocorrido em 12/4/1917, que tinha deixado 9 filhos órfãos, já que sua esposa, Alina Barros, falecera em 1914.
Seus netos, Honorina, Jonas, João, Antônio, Anézia, Reinaldo, Ary e Margarida, ficaram em pobreza absoluta. O pai, João Teixeira Diniz, morreu endividado sem deixar nada para os filhos e Antônio, já não tinha condições de os socorrer, encontrando-se em estado de inconsciência mental.
Diz a tradição que o Barão morreu louco e pobre, tocando buzina pelos montes da cidade. Mas os fatos que o precederam demonstram que a tradição popular estava errada.

Voltando ao ano de  1881,  em 5 de outubro  é batizado em Caldas um menino de nome Cícero, filho de pai incógnito e de Pureza Augusta Carmela, também Pureza Meireles. Este menino, diz a tradição, seria filho de Antônio, embora nunca tenha sido reconhecido oficialmente. Inclusive, não foi encontrada nenhuma referência oficial do Barão a ele, nem como filho nem como cidadão. Diz ainda a tradição que Cícero, teria ido para São Paulo por não concordar com a forma de viver de seu pai, recusando qualquer ajuda paterna. Em São Paulo fez fortuna, sozinho, tentando esquecer de quem era filho.
Novamente a tradição popular estava errada.
Em  26 de novembro de 1917, 13 meses antes do Barão falecer e 7 meses depois do falecimento de João Teixeira Diniz, Cícero Meireles vem aà Poços de Caldas e faz com que o Barão -  em estado de decrepitude e inconsciência - assine uma escritura de perfilhação.
A partir daí Cícero Meireles passa a usar o nome de Cícero Meireles Teixeira Diniz.
O que levaria Cícero Meireles a esperar a morte do “ irmão“, ocorrida poucos meses antes e o estado de inconsciência de seu pai para reclamar os direitos de filho? --- Seu pai estava falido ! Seus sobrinhos viviam na miséria !
Os fatos que ocorrem depois da morte do Barão são ainda mais estranhos, embora esclarecedores.
O Barão morreu em 26/12/1918, não deixando testamento nem bens a inventariar.
Em 16 de setembro de 1919, Cícero Meireles Teixeira Diniz apresenta-se no escritório do escrivão  interino, José Bretas de Oliveira, em Poços de Caldas, declarando a morte do Barão, e dizendo-se seu único herdeiro e requer a sua nomeação como inventariante dos bens de seu pai.
Nomeado oficialmente, presta juramento e declara que seu pai deixara um imóvel na Rua São Paulo no valor de 3.000$000 (Três contos de réis) e mais 4.000$000 ( Quatro contos de réis ) que havia recebido de Francisco Pereira Guimarães, referentes a uma dívida para com o Barão.
Foram nomeados avalistas dos bens os senhores Francisco Machado Falleiros e Constancio Vivas, que atestaram sua veracidade.
Declarado único herdeiro, Cícero Meireles Teixeira Diniz pagou as custas e os direitos de transmissão referentes, sobre  6.850$000 , valor dos bens do Barão, depois de descontados os encargos.
O processo foi encerrado em 15 de Junho de 1920.
Todo este procedimento seria normal em uma família normal. Faleceu o pai e o filho vem a público apresentar os bens de que é herdeiro. Só que neste caso especial, alguns fatos devem ser considerados :
1) Cícero Meireles nunca fez questão de usar o nome da família do pai;
2) Nunca se interessou pelos bens do pai, nem em vir a ser auxiliado por ele;
3) Deixou João Teixeira Diniz falecer para vir à Poços reclamar, junto do pai, o perfilhamento;
4) Apresenta-se junto do tribunal como filho único do Barão, sabendo que todas as pessoas tinham conhecimento da existência dos filhos de João Teixeira Diniz, herdeiros, por direito, do Barão;
5) Dá como bens a inventariar uma casa que tinha sido vendida pelo Barão, anos antes de sua morte, pagando direitos e custas sobre bens que não herdou.

Naturalmente que, sendo conhecida a inteligência de Cícero Meireles, alguma coisa havia por detrás de todas estas atitudes incoerentes.

E não decorreu muito tempo para se esclarecer esta reviravolta no comportamento do filho que sempre renegou o pai e tudo o que lhe dizia respeito.

(Continua)